veja a última viagem
"Não fale, amor. Cada palavra, um beijo a menos." Dalton Trevisan
Passaram-se alguns dias desde o último encontro entre Marina e Vitor. Ela, com aquele “querendo não querer”, seguia com seu itinerário habitual na esperança de que um descuido do acaso fizesse que os dois se encontrassem mais uma vez.
E quando isso acontecesse, ela agiria naturalmente e tentaria saber mais sobre aquele rapaz, que articulou os lábios de uma forma graciosa ao formular, erroneamente o seu nome: MARÍLIA e não Marina.
Ela ficaria extremamente encantada se ele dissesse que ouve Glen Hansard, que seus contos preferidos são de Dalton Trevisan e se indicasse um filme, seria “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”.
E ai, ambos perceberiam que têm tantas coisas boas em comum e mais uma vez ela perderia o ponto para descer e seguir o caminho de casa. Já na Paulista, andariam sem rumo enquanto conversavam sobre música e literatura. Ele a convidaria para um café ou quem sabe uma cerveja, dependendo do clima noturno. Lembrou-se que não é fã do gosto da cevada.
Voltou para a realidade a tempo de descer no ponto certo. Ele não entrou no mesmo ônibus, não entrou no tempo certo. Perdida em seu planejamento de “encontro perfeito”, Marina nem notara a ausência do rapaz, pois Vitor estava presente nas horas em que ela menos percebia.
Será que ela demorou demais?
sábado, 14 de novembro de 2009
Itinerário Habitual - Parte V
domingo, 8 de novembro de 2009
Another sunny day
Ainda bem que parou de chover. Não aguentávamos mais ter que adivinhar qual seria a previsão do tempo para o dia seguinte, mesmo que no fundo, sabíamos que ia chover no final de tarde. Com o mal tempo que acometeu a cidade, outros assuntos também contribuíram para a impaciência nos últimos dias: trabalhos de conclusão de curso, provas cruéis e notas para reaver. E para ajudar, o trabalho corrompendo boa parte do nosso dia.
À medida que o sol reina em São Paulo (mas sem exageros, por favor), tiramos a poeira deste blog. Sabemos que não é possível escrever sobre assuntos clichês apenas para manter o Capuccino em uma temperatura agradável. Estamos nos concentrando em nossas pendências acadêmicas, que por vezes tornam-se nocivas, e ao mesmo tempo, preparando textos formidáveis para aqueles que conhecem o Capuccino Paulistano. Continuamos a embarcar no metrô todos os dias, ouvimos casos corriqueiros, criamos histórias cosmopolitas e estamos ansiosas para colocar todas essas ideias ao alcance de quem quiser apreciá-las.
Portanto, o CP não está abandonado. Apenas enfrenta um período curto de recesso e voltará ainda mais delicioso ;)
sábado, 17 de outubro de 2009
Quanto dura o amor?
O filme conta histórias de amor distintas entre si. A garota do interior, aspirante à atriz, que se vislumbra com a cidade grande (‘As coisas mudam muito rápido por aqui’) e se envolve em um triângulo amoroso. A advogada que inicia um relacionamento com o colega de trabalho, porém há um segredo a ser revelado. O desenrolar de um possível relacionamento entre um escritor e uma prostituta.
O que há em comum entre as pessoas envolvidas nessa ciranda? A cidade grande, claro.
O amor pode nos fazer perder a cabeça. Mas que raios este sentimento significa? Não há definições. Sabemos apenas que ele tem começo, meio, e, infelizmente, fim.
Sai do HSBC Belas Artes refazendo praticamente todo o trajeto da personagem principal do filme. Quem sabe assim eu também consiga respostas para algumas questões.
Personagens (no filme e na vida real) em busca de alguém para amar, dividem um endereço em São Paulo (‘Eu moro na Avenida Paulista! ’) e entre frustrações, tentam descobrir quanto dura o amor.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Ah, mas você quer ser professora?
- Você faz faculdade?
- Faço sim!
- De que?
- Letras!
- Letras?
- Sim, Letras!
- Mas você que ser professora?
- Quero! Por que?
- Nossa... (acompanhado daquela aquela cara de desdém, e desaprovação)
Sim, quero ser professora. Enfrentar uma sala de aula cheia de moleques e meninas sem educação, que não estão nem um pouco atentos ao que eu digo... Sim, quero fazer a diferença na vida de alguém. Sim, quero ensinar uma criança a mágica de ler e escrever.
Quando me perguntam o que eu estudo na faculdade, e eu respondo 'Letras', a opinião é dividida: alguns acham uma profissão nobre a de professor; outros, acreditam que não vale a pena. Estudar horrores para acabar à frente de uma sala de aula, ensinando, ou tentando ensinar um bando de adolescentes ou crianças aquilo que eles não fazem questão de aprender, e, ainda por cima, ganhando mal para isso.
Professor é, em alguns casos, uma profissão que não recebe o quanto é justo, estou falando de dinheiro. Mas o que as pessoas não entendem, é que o que se ganha sendo professor, é muito, mas muito mais valiosos do que qualquer dinheiro. Conhecer no início de um ano um grupo de alunos que mal sabem pegar um lápis, e, no fim do ano ver que eles são capazes de escrever seus próprios nomes, e algumas coisinhas a mais, é uma delícia!
- Mas você quer dar aulas em escolas particulares, né?
Pode ser. Hoje, em São Paulo, existem muitas escolas particulares, e muitas escolas particulares muito boas. É digno, mas acho, particularmente, muito mais digno, dar aulas no Estado ou na Prefeitura. Por que?
Quem tem a coragem de dar a cara a tapa nesse tipo de lugar? Escolas da periferia são esquecidas, e a frequência, na maioria das vezes, são de alunos com a família de pouca instrução. Educar quem já é educado desde sempre, pessoas de classe média/alta, que sempre tiveram de tudo, não vão às aulas com fome ou com frio, é muito fácil... Agora, vai ensinar o pessoal que não tem instrução, não tem interesse... É um trabalho lindo, fazer que as pessoas se encantem pelo conhecimento.
Sempre estudei em escolas públicas, e hoje, estou prestes a me formar na faculdade, coisa que a sociedade não 'bota uma fé' que aconteça.
Lembro-me da professora que me alfabetizou, a Lenilélia. Além de excelente pessoa, ela ensinou a mim e a muitas outras pessoas, que ir à escola não é sentar um atrás do outro, tirar o caderno da mochila e ficar lá, estudando... Aprendi com músicas, e muitos outros artifícios que deram supercerto. Além de aprender a ler e escrever, fazer continhas de mais e menos, aprendemos a respeitar as pessoas e conviver com diferenças...
Alguns bons anos depois, já no cursinho, tive a honra de ter aula com duas pessoas que foram cruciais na minha escolha, Dunder e Geovana. Literatura e Gramática. Dois professores sensacionais, que tem amor àquilo que fazem. Dão aulas porque realmente gostam e sentem prazer.
Professores não são tão bem remunerados quanto advogados, empresários ou médicos. Mas com certeza, esses advogados, médicos e empresários são o que são, graças aos professores que tiveram ao longo da vida. Professor é a única profissão que permite que todas as outras profissões sejam possíveis.
Fica aqui, meu eterno agradecimento a todos os professores que eu já tive.
Feliz dia dos professores!
Letícia Aracil
Os professores e a realidade
Sabemos que a educação básica na cidade de São Paulo não é tão invejável quanto gostaríamos, que ainda há muito a ser feito, reformulado e reavaliado. Porém, crescemos no meio deste ‘problema a ser resolvido’. Desde os meus anos primários, as escolas públicas foram um problema. Nós, das escolas estaduais, seriamos os marginais da sociedade, com emprego e vida medíocres. Ao passo que os estudantes dos colégios particulares teriam ‘um futuro brilhante’, eu mal chegaria à faculdade. Cresci tendo essa impressão de alguns professores. Muitos deles não apostariam no futuro de alguns alunos.
Estudei em uma escola estadual da Zona Leste chamada ‘Padre Antão’, ou melhor, ‘PA’. Tive uma professora de língua portuguesa que também lecionava no colégio mais top do meu bairro. Eu via seu olhar de espanto perante aqueles pseudo-marginais, esquecidos pela verba estadual, aquelas garotas com a calça do uniforme a dois dedos do umbigo dançando no pátio a música da moda.
Essa professora tinha amor à profissão. Ela se esforçou, mas poucos lhe deram atenção. Incentivou os alunos que lessem mais, mesmo que fosse o jornal ainda pendurado na banca. Quem se importou? Aliás, quem se importaria com uma professora de português falando sobre redação, se no intervalo rolaria a briga entre os garotos o 2º ano?
Nunca fui aluna exemplar, mas aquela mulher chamou-me atenção. E foi ai que eu descobri a MINHA PAIXÃO. Eu pensava, ‘Por que uma professora de colégio particular se importaria com uns perdidos como nós’? Foi quando ela mostrou-me que eu não precisaria seguir o mesmo caminho que tantas outras garotas de minha idade seguiriam. Mostrou-me que eu poderia ter uma realidade totalmente diferente, que uma cidade imensa, chamada São Paulo, estava a minha espera.
Falou-me da importância de ler e escrever todos os dias. Disse-me que, se eu soubesse o sentido de cada palavra proferida, eu dominaria minha própria vida, meu mundo.
E hoje estou aqui. Sonhando em um dia tornar-me professora. Vendo a dura realidade das escolas dos bairros periféricos, dos docentes desrespeitados, do pouco caso de alguns alunos, do muito que alguns fazem e quase sempre são ignorados.
No entanto, há quem ainda esteja lá dentro da escola, na ânsia de aprender alguma coisa, conhecer algo novo, descobrir a forma de dominar o seu mundo. Lendo o livro doado pelo aluno do colégio particular, jogando futebol com a bola quase murcha na quadra mal cuidada. Há quem espere pelo sinal de entrada no portal pichado enquanto meninas de 14/15 anos se estapeiam por razões insignificantes (leiam-se namorados)
Será que ainda existem professores dispostos a viverem em meio a tudo isso, somente em nome da paixão de transmitir conhecimento a jovens quase descrentes?
Mesmo com toda essa realidade, eu ainda sonho em voltar ao PA e fazer a diferença na vida de um aluno, assim como fizeram por mim.
Aos mestres (paulistanos, de preferência), com carinho, deixo meu ‘muito obrigado’.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Itinerário Habitual - parte IV
dê uma olhada no último ponto...
"Minha Marília,
Tu enfadada?
Que mão ousada
Perturbar pode
A paz sagrada
Do peito teu?"
Tomás Antônio Gonzaga
Fingiu que não entendeu a pergunta, e retrucou:
- Você falou comigo?
- Sim, falei. Disse ele. Perguntei como você se chama.
O rosto de Marina ardeu em chamas, e ela jurou ter sentido o coração na garganta.
- Marina.
- Marilia?
- Não, Marina, com n!
- Oi, Marina-com-n! Tudo bem?
- Tudo!
Ela não quis perguntar “e você” para tentar não estender o assunto e ter que começar a falar de sua vida, onde mora, o que estuda, onde trabalha...
- Sabe, há um tempo que vejo você no ônibus, mas você não descia nesse ponto... Mudou de casa?
Com aquela pergunta, as chamas que queimavam o rosto, tranformaram-se em pedras de gelo na barriga. E Marina não sabia o que responder àquela pergunta tão...tão...
- Na verdade, me propus a andar um pouco mais, por isso deixo um ponto passar.
- E por que não desce um ponto antes?
- Porque acho a Av da Consolação um pouco escura demais, e tenho medo. Bom, vou ficar por aqui. Até logo!
- À propósito, Marina, o meu nome é Vitor. Foi um prazer te acompanhar até aqui! Boa noite!
- Boa noite, Vitor!
Marilia... ele a chamara de Marilia... aquela, de Dirceu...
Naquela noite, Marina não seguiu a rotina. Não preparou um lanche, não tomou banho e não sentou-se na cama para ler antes de pegar no sono. Sentou-se no sofá e permaneceu inerte durante alguns minutos, digerindo cada palavra articulada por Vitor. Espantava-se consigo mesma pela maneira como foi receptiva a ele, mesmo não o tendo olhado nos olhos. Mesmo assim pode perceber que era de um azul estranho, um azul turquesa tão claro e transparente, eram olhos de ressaca mesmo, mas ressaca de um mar muito limpo... Diferente dos seus, castanhos e um pouco turvos na cor.
Acabou pegando no sono, sem lanche e sem banho, ali mesmo, no sofá. Acordou pela manhã, com o celular já quase sem forças para despertar de tanto que já havia tocado. Olhou no relógio e viu que já estava atrasada para o estágio. A aula em que faz estágio começava às 7h e era 6h30. Levantou-se num pulo, ligou a cafeteira e entrou no chuveiro.
domingo, 11 de outubro de 2009
Itinerário Habitual - Parte III
Não se perca neste itinerário...
“Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois”
(Alberto Caeiro)
No dia posterior ao encontro dos olhares, Marina acordara com uma estranha sensação. Um estímulo para usar uma roupa mais bonita ou arrumar os cabelos de um jeito diferente. A garota nunca se importou em impressionar os outros com a forma que se vestia. Para ela, pouco importava se a achavam bonita ou não. Preferiu não fazer alarde e continuou com o habitual.
O dia passou rápido. Imersa em seus próprios pensamentos (‘Qual será o nome dele? ’), a garota passou a tarde no estágio e de lá fora direto para a faculdade. Enquanto o professor falava sobre realidade educacional, Marina se questionava sobre a própria realidade. Sempre soubera o que fazer em diversas situações, mas depois daquele encontro, não sabia se ainda teria coragem de pegar o mesmo ônibus, apenas para evitar um reencontro.
Dez e meia. Correu para a Rua da Consolação. Entrou no ônibus. Ele já estava lá. Vestia uma camiseta branca, bermuda e tênis sem meia. A barba estava por fazer. E os olhos, mais azuis do que antes. Mais uma vez, a garota desviara o olhar. Porém, sentou-se bem próxima ao rapaz.
Abriu seu Caeiro e fingiu ler. Ela queria ouvir mais uma vez o som daquela voz. Reparou nos braços do rapaz. Havia uma tatuagem no braço esquerdo. A essa altura, ela já imaginava ver o resto do desenho. Tentou se concentrar. Inútil tentativa.
‘Deixe de ser ridícula’, pensou. E de tanto pensar, perdera mais uma vez o ponto. Novamente desceu na Brigadeiro. O Rapaz desceu logo atrás. E se ela diminuísse o passo para ele acompanhá-la? E se ele achasse que ela fazia tudo aquilo de propósito?
Julgou-se mais uma vez sonhadora. A realidade um dia a pressionaria a tomar uma atitude mais sensata, mais real e menos fantasiosa.
De repente, ouviu uma voz: ‘Oi, tudo bem? Qual é o seu nome?’
Inerte, perante aquelas palavras, ela só conseguia admirar aqueles olhos. Agora, um pouco mais de perto...



